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22 de Agosto de 2017

Como deixei de ser corrupta

Moema Fiuza, Advogado
Publicado por Moema Fiuza
há 2 anos

Por Karin Hueck

Eu tinha vinte e poucos anos quando deixei de ser corrupta. Desisti da vida suja que levava, cansei de conviver com o medo de ser pega, e voltei à legalidade. Não queria mais entrar em meios escusos para ganhar dinheiro, pedir favores a fornecedores duvidosos, nem dizer que sou algo que não sou. Aos vinte e poucos anos de idade, parei de falsificar carteirinha de estudante.

Todo mundo ao meu redor carregava no bolso algum tipo de falsidade ideológica: a matrícula para uma pós-graduação em gestão de negócios, a carteirinha da faculdade da qual ele havia se formado há seis anos, a inscrição para uma graduação em ciências contábeis em uma instituição que talvez o MEC já tivesse descredenciado. Eu era apenas mais uma criminosa.

O problema, eu repetia com toda convicção, é o preço dos ingressos. E de fato é. No Brasil, um show internacional não sai por menos de algumas centenas de reais reais. Um cineminha de fim de semana custa R$ 25, R$ 33 se for em 3D, R$ 46 se for na sala VIP do Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, com direito a uma taça de vinho Chateau-Thieuley-bla-bla-bla. O Lollapalooza 2014 vai custar R$ 540 para todos os dias por aqui, mas apenas (?) 396 no Chile – entre tantos outros exemplos que os aficionados em shows, eu entre eles, adoramos repetir. Realmente, é revoltante. Por que nós temos de pagar tanto? Mas será que a melhor solução é falsificar carteirinhas e entrar no esquema, em vez de lutar por preços justos?

Infelizmente, eu não sou a única corrupta da minha lista de Facebook: quase todo mundo cometeu alguma pequena infração para “tornar sua vida mais fácil”. A lista das pequenas infrações que são grandes não para. Lúcio* circula pelo acostamento quando o trânsito da Imigrantes para. Os pais da minha amiga Marta* compraram sua carteira de motorista quando ela foi reprovada. Meu amigo Marcos* se livrou da polícia depois de um acidente embriagado pagando um generoso café pro delegado. Minha amiga Ana* acabou de cair na malha fina do Imposto de Renda – ela devia dois anos ao Leão. Meu amigo Paulo Maluf* responde na justiça por lavagem de dinheiro e desvio de fundos públicos. (*Nomes fictícios.*Nome real)

É exagero comparar essas transgressões com a corrupção do políticos? Talvez (afinal, tá difícil ser pior do que o Maluf). Mas não muito. Outro dia foi divulgada a notícia de que sonegação de impostos no Brasil passa dos R$ 400 bilhões – um valor 20 vezes maior do que tudo que foi gasto com o Bolsa Família no mesmo ano. Para que a soma seja tão grande, é preciso também que muita gente grande esteja sonegando: donos de empresas, proprietários de hotéis, empreendimentos milionários. São cidadãos também, e não os políticos que tanto gostamos de xingar, cometendo grandes infrações. De acordo com os responsáveis pela pesquisa, o dinheiro que deixou de entrar foi parar em paraísos fiscais. Mesmo que você não seja fã do assistencialismo: é melhor usar esse dinheiro para projetos sociais ou mandar tudo pra Suíça?

O problema é que, se alguma dessas transgressões for perdoável, todas as transgressões são perdoáveis. A lei é para todos. Por isso, precisamos tomar uma decisão sobre a sociedade que queremos: ou assumimos que somos corruptos e que essa “característica” faz parte do que queremos para o país (particularmente, não gosto muito dessa opção) ou deixamos de praticar pequenos atos de corrupção no nosso diaadia (hm, melhor). Acho que todo mundo vai preferir a segunda opção. Quando pedimos penas rigorosas e uma justiça mais atuante devemos lembrar que queremos isso para todos nós. Não só para “eles”, não só para “o outro.”

E o que isso tem a ver com felicidade, vocês vão dizer? Tudo, de acordo com a ONU. Em seu relatório global de felicidade, o World Happiness Report 2013, ela destrincha os principais fatores que regulam a felicidade das nações. E, entre coisas como “liberdade para tomar suas próprias decisões” e “apoio social” está a “percepção de corrupção”. Ou seja, poder confiar nas instituições e nos indivíduos deixa as pessoas mais felizes. (O índice de corrupção do Brasil foi bem alto, embora nossa felicidade seja invejável: somos a 24a. Nação mais alegre do mundo. Pausa para a dancinha da alegria o/ )

Mas isto não é um texto acusatório-mimimiasaída-paraoBrasil-é-Guarulhos. Todo mundo comete infrações, grandes ou pequenas, vez ou outra. Outro dia, distraída no meio da madrugada, peguei o metrô aqui em Berlim sem pagar – sim, porque aqui o acesso aos vagões é sem catraca. O governo confia na sua honestidade e que você vai comprar seu tíquete, sem sentir a necessidade de cobrá-lo por isso. As máquinas de bilhetes ficam dentro da estação e você que trate de validá-los e cadastrá-los a cada viagem. Às vezes, algum fiscal aparece à paisana para conferir – mas é bem às vezes mesmo. Pois neste dia aconteceu: no único dia em que andei sem bilhete, fui pega dentro do metrô por um desses fiscais e multada. Cento e quarenta reais para me fazer lembrar que o crime não compensa. Ser honesto é uma prática constante.

Esse lapso é bem diferente da corrupção sistemática das carteirinhas falsas. O esquema é tão pronto que as próprias casas de show, cinemas e teatros admitem que colocam o preço lá em cima paracompensar a quantidade de carteirinhas que pulula por aí. Eles calculam que 80% dos ingressos comprados são de estudante, e dizem que poderiam baixar o preço se não fosse assim (aí vai da sua boa-vontade acreditar). A tristeza é constatar que a lógica que eles alegam é a contrária à do governo alemão: as empresas confiam que o consumidor vai ser corrupto – e aproveitam para lucrar em cima disso. Por isso, para deixar de ser presumidamente corrupta, e não sê-lo mesmo, não tenho mais carteirinha de estudante. Se não tenho dinheiro para ir ao show, simplesmente não vou ao show. E não sofro com isso. (E as empresas de entretenimento, que antes ficavam com o dinheiro da metade do meu ingresso, agora ficam sem dinheiro algum. Touché.)

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2 Comentários

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Interessantíssimo o texto, a cultura de "levar vantagens em tudo" arraigada no seio de nossa sociedade faz com que pessoas comum do povo quando se tornam detentora de algum tipo de poder (seja político, servidor público ou até mesmo um particular investido de algum poder) usem de meios sujos. Isto porque já agiam assim, falsificando boletos e comprovantes de pagamentos de curso superior para mostrar em cinemas, shows, etc.
Temos que mudar nossa cultura para que não encaremos a prática de pequenos delitos como corretos. Óbvio que a punição para "crimes grandes" devem ser o foco, mas sem descartar os "crimes pequenos". continuar lendo

Muito bom mesmo o artigo. É como eu costumo dizer, todo mundo sabe reclamar daquele político corrupto, mas também todo mundo adora furar uma fila no banco, pedir para um amigo que está prestes a ser atendido pagar as suas contas para que não precises aguardar na fila, e por aí vai. Quantas pessoas por aí que recebem um troco a mais por engano quando o caixa do supermercado está abarrotado de outros clientes na fila para atender, mas se o troco voltar a menos...... Deus o livre, até o gerente do estabelecimento vai escutar o que não deve, pois devia ter colocado gente preparada para gerir o caixa. Não raras vezes nos deparamos com pessoas que reclamam de políticos corruptos, mas que votaram no candidato porque ele deu uma carguinha de brita, ou dois botijões de gás. A corrupção, infelizmente, está enraizada na cultura brasileira de tal forma que aquele que é honesto é taxado de trouxa, burro, ingênuo, quadrado, careta, etc. continuar lendo